Nós, seres humanos, diferentemente dos outros animais, não temos um dispositivo no nosso código genético que nos permita sobreviver e nos constituir sem estarmos em relação com outro ser humano, já que nascemos numa condição de total dependência e imaturidade. Significa dizer que somos marcados, desde o início, pelo relacionamento primordial com aqueles que se ocupam com a nossa existência, com aqueles com quem fazemos vínculos.
Deste modo, queiramos ou não, a subjetividade do novo bebê em vias de constituição será atravessada pela subjetividade dos chamados pais ou substitutos destes. É questão de sobrevivência. Entendamos subjetividade como o mundo interno, constituído pelos desejos, emoções, idéias e significados.
É nesta relação de dependência que se fará o investimento emocional necessário para estruturação psíquica do bebê; é quando dar-se-á o nascimento psicológico, o surgimento de um sujeito, desde os primeiros dias de sua existência, após o nascimento propriamente chamado de biológico.
É fundamental que se acredite que a constituição deste bebê se dá tão precocemente para que sejam endereçados a ele, desde o início de sua vida, as palavras, o olhar e o toque que serão fundamentais para a estruturação do seu aparelho psíquico.
É desta forma que ele vai saber o significado de sua existência, e o lugar dele no desejo parental. É através do olhar do outro que ele vai se reconhecer e receber as mensagens que lhe dirão quem ele é. O bebê que não é tocado devidamente, a quem não se dirige à palavra e o olhar, ou que é privado de afeto, pode apresentar falhas no desenvolvimento psíquico.
Ainda neste processo de constituição serão os pais ou seus substitutos os mediadores da linguagem, do mundo simbólico que já existe previamente ao nascimento do bebê. Serão os pais que vão interpretar e atender as necessidades do bebê. Serão eles que falarão pelo bebê e o introduzirão no discurso. E não há como fazer isso a não ser a partir dos próprios desejos, de suas histórias familiares, das histórias de filhos que foram e que são.
Esta pré-história familiar, na qual o bebê será incluído, e que será transmitida através da linguagem, servirá de referência na construção da identidade dele. Essa transmissão se dará através das gerações e são histórias com as quais ele irá se identificar ou se diferenciar. Repetir ou fazer diferente. E essas escolhas se darão em função das redes de identificações produzidas pelos laços familiares. Essas histórias serão a herança familiar e a transmissão é psíquica.
Enfim, para que este bebê deixe de ser um organismo vivo e passe a condição de sujeito ele terá que ser marcado pela história de um outro ser humano, mesmo que futuramente faça uma releitura desta história e possa se vincular a ela de maneira diferente.
Glória Góes é psicóloga, psicanalista e fonoaudióloga.
Graduada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Universidade Estácio de Sá.
Formação em psicanálise durante 15 anos na Escola Letra Freudiana no RJ.
Pós graduada em Deficiência Auditiva e Fonoaudiologia Empresarial
Cursos de aperfeiçoamento em atuação fonoaudiológica em UTI neonatal
Experiência clínica em consultório e hospital desde 1985 – atendimento à criança adolescente e adulto
Experiência no atendimento e orientação a bebê e gestante
Palestrante na área da saúde, educação e empresarial
Oferece cursos para gestantes/casais grávidos e babás
Consultórios em São Paulo e Alphaville
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