A chegada de um filho desperta perguntas e experiências que convocam o mito da origem: - O que meus pais sonhavam e como olharam para mim? Que lugar ocupei entre eles? Quais são as minhas lembranças mais remotas?
Alguns profissionais que trabalham com gestantes conseguem acompanhar o encantamento e o susto de homens e mulheres que sem o saber, decidem rememorar o princípio dos tempos. Esses têm o privilégio da convivência com a coragem e angústia das grandes travessias. Enfrentar maremotos e tempestades, trombando dia e noite com uma barriga, ou um bebê no colo, lembra um roteiro de ficção científica.
"Bem vindos à vida selvagem“ saúda bem-humorada uma jovem mãe, com o sono absolutamente perturbado. Acolher o novo é tarefa quase insana. Impõe o contato e o confronto com sonhos e pesadelos. É quase um adoecer!
A maternidade e a paternidade operam uma rotação de 180 graus: a mulher e o casal viram de ponta cabeça. Talvez no auge de suas forças, alguns sintam certo conforto em reverter o fluxo sanguíneo quando de cabeça para baixo. Outros, como na canção de Caetano desconfiam que “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.
- Se fosse só de cabeça para baixo...! É a queixa de uma mulher de 35 anos, mãe de um alegre garoto de três anos.
A participação em grupos de gestantes ou atendimentos individuais não conseguem evitar mergulhos "de cabeça". Vendavais e tsunamis são imagens que denunciam a falta de ancoradouro possível à maternagem. Sim, porque com os homens acontece de outro jeito. Eles buscam desesperadamente fincar os dois pés no chão. De prontidão esperam alguma brecha para uma “nova ordem mundial”.
Mas quem é este bebê para quem é favorável estar de ponta-cabeça na hora de nascer? Que novos papéis precisam ser aprendidos? Como fica o namoro e o casamento? O que fazer com as exigências do dia-a-dia?
Multiplicam-se grupos e instituições, com diferentes ideologias, para o impossível: preparar homens e mulheres “grávidos” para o partejar de uma nova família. As diferenças ficam por conta de abordagens mais tecnicistas ou mais humanistas. Uma escolha que faz toda a diferença. Faz parte da função materna e paterna escolher a abordagem médica, se mais ou menos intervencionista, o berçário, a alimentação, as roupas, os brinquedos, os livros e assim por diante.
A informação não dá conta da natural ignorância que acompanha as grandes sagas. É importante abrir espaços para a conversa, a formulação de dúvidas, sonhos e assombros. A troca de experiências, a informação dosada e a observação criteriosa. Com humor, sempre que possível.
Os profissionais que trabalham com o nascimento sabem da importância de incentivar a formação de redes de apoio, somar competências na família e como a parceria com os médicos que cuidam e fortalecem potencialidades.
Depois, a vida segue o seu curso!
Anna Mehoudar
Psicanalista
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