No inicio do ano um simpático casal participou do segundo encontro de curso de Preparação para o Parto e Cuidados com o Bebê. Eles tinham muitas dúvidas sobre pais e bebês. A diferença é que ela não estava grávida, no sentido comum do termo. Em “compasso de espera” o casal preparava-se para levar a recém-nascida para casa, conforme reza a lei brasileira de adoção. E a generosidade da mãe biológica. O grupo todo, profissionais incluídos, pegou uma carona na comovente construção dessa família.
Peixes, pássaros, girafas e hipopótamos nascem dotados de comportamentos que garantem a sua sobrevivência. Para a espécie humana, porém, o nascer não basta. O bebê nasce extremamente dependente e seu desenvolvimento rumo à autonomia é lento e não o torna “independente” como gostaríamos de acreditar. A autonomia pressupõe a inclusão do outro e esta é uma condição de toda a nossa existência. Somos seres de relação.
A vida de um bebê não é nada fácil. Ele trabalha muitíssimo para estabelecer códigos de comunicação com o mundo. Dotado de irresistível sorriso “reflexo” ao nascer, ele cativa tanto o adulto que cuida dele como mero transeunte. No entanto, quando sente qualquer desconforto como fome, frio, calor ou falta de colo ele reage como se assombrado por uma ameaça à sua integridade. E tanto faz se são ameaças internas (p.ex. cólicas) ou externas (p.ex. sumiço momentâneo da mãe)... O resultado é um choro que beira o insuportável e desperta uma vontade soberana por acalmá-lo sob pena de o adulto chorar ou se desesperar junto. Com o tempo o pequeno aprende a esperar, a se acalmar com a voz, o gesto ou o olhar do adulto.
O bebê sabe de si pelo olhar do outro, pelo olhar daquele que tem a sensibilidade necessária para decodificar um ser humano que ainda não fala. Para o exercício da maternagem não é suficiente, nem necessário que o cuidador seja a mãe biológica. O músculo social do bebê é forjado no pulsar afetivo do meio ambiente de sua primeiríssima infância. A mãe e também o pai são seu meio ambiente psíquico.
Mas quem é este bebê? A que veio e o que ele quer de mim? O pequeno que aconchegamos nos braços jamais é o bebê que imaginamos quando a caminho. No colo eles não são apenas seres encantadores, mas um convite diário e mesmo exaustivo a reformulações sem precedentes.
O casal que se preparava para viajar tinha uma pré-disposição para o outro. Efetivamente ela é brasileira e ele um estrangeiro que já fala muito bem a nossa língua. A decisão de ter um filho diz da prontidão para o outro. Não sem conflitos. Mas uma prontidão que permite que culturas familiares diferentes se aproximem e se fertilizem.
O bebê como paradigma da alteridade é ao mesmo tempo familiar e estrangeiro a nós mesmos. Ele nos obriga a uma tomada de posição ética em direção à inclusão, à tolerância das diferenças, à generosidade.
Reiteradamente precisamos todos adotar uns aos outros e também os nossos filhos.
Anna Mehoudar
Psicanalista
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